ROBERTA

2 Visualizações

ROBERTA

2 Visualizações

A música “Roberta”, quinta faixa do álbum colaborativo “para: todas que eu fingi amar”, de Alee e Klisman, aprofunda o conceito central do projeto: relações intensas, carnais e marcadas por troca material — mas emocionalmente vazias. Se em faixas anteriores o foco era dopamina, conflito e culpa, aqui o tema evolui para poder, dinheiro e dependência química-afetiva.

Em “Roberta”, o eu lírico assume uma postura dominante. Ele não promete amor, não promete mudança — oferece prazer, luxo e presença temporária. O carro vira quarto, o cartão vira solução emocional e o sexo vira linguagem principal da conexão. Mas, por trás da ostentação e da estética trap, existe uma crítica sutil: quando o dinheiro resolve tudo, o sentimento desaparece.

“Toma meu card e gasta tudo / é de platina igual meu disco”

Esse verso é central para entender o que significa “Roberta”. O “card de platina” simboliza poder financeiro e status, algo recorrente no trap contemporâneo. Ao comparar o cartão ao disco de platina, ele conecta sucesso musical com poder de compra. Mas aqui há algo mais profundo: o dinheiro substitui o diálogo. Ele não resolve conflitos conversando — resolve pagando.

Quando ele diz que é com o cartão que resolve os problemas da “bitch”, não está apenas ostentando. Ele está revelando uma dinâmica tóxica: traumas, inseguranças e “neuroses” são anestesiados com consumo. Grife vira terapia. O luxo vira válvula de escape. Isso reforça o conceito do álbum: ele nunca ama de verdade, ele compensa.

“Nossa química bate, bate / a abstinência faz tremer tua carne”

Aqui a música sai da superfície da ostentação e entra na ideia de dependência. “Química” é uma metáfora para atração física intensa, mas “abstinência” traz uma conotação quase química mesmo — como vício em droga. No universo do trap, essa comparação não é aleatória. Amor e vício caminham juntos.

Entenda a letra de “Roberta” por esse ângulo: eles não voltam um para o outro por amor, mas por necessidade física e emocional. A abstinência não é de afeto, é de sensação. O corpo sente falta da intensidade. Isso conecta diretamente com o tema da dopamina explorado anteriormente no álbum. A relação é sustentada pelo pico — não pela construção.

“Não tem como eu te salvar / ela entende de política”

Esse trecho quebra a expectativa de herói romântico. Ele admite que não pode salvá-la. No trap, é comum a figura do provedor, do homem que “tira da situação”. Aqui ele recusa esse papel. Quando diz que ela entende de política, pode estar sugerindo que ela sabe jogar o jogo das relações, que entende manipulação, interesse e poder.

Existe uma consciência de que ambos sabem o que estão fazendo. Não é ingenuidade. É escolha. Isso fortalece a ideia de que “Roberta” explicada vai além do sexo: é sobre duas pessoas que entendem a dinâmica tóxica, mas continuam nela.

“Uma religião que mataram meus ancestrais vai me levar a Deus / Mas se eu olho nos teus olhos eu vejo Deus”

Esse é, talvez, o trecho mais profundo da música. Aqui há uma referência histórica e racial importante. Ele questiona uma religião imposta que perseguiu seus ancestrais — provável alusão ao processo colonial e à imposição religiosa sobre povos negros.

Mas logo depois ele desloca a ideia de Deus para o olhar dela. Isso mostra conflito espiritual e existencial. Ele não encontra transcendência na religião institucional, mas na intensidade da conexão carnal. O sagrado é substituído pelo desejo. É uma mistura de crítica histórica com romantização da intensidade física.

“É quinta-feira mas pra mim parece sábado”

Esse verso parece simples, mas carrega um símbolo importante: a vida perdeu referência. Quinta vira sábado porque todo dia é excessivo. No trap lifestyle, dias úteis e finais de semana se confundem. Festa constante, estrada, shows, sexo casual.

Isso também mostra alienação. A rotina normal não existe mais. A intensidade virou padrão. E quando tudo é sábado, nada é especial. Essa banalização do excesso é um dos pontos mais fortes da música.

Significado geral da música

O que significa “Roberta”? A faixa representa o momento em que o eu lírico abandona qualquer tentativa de romantizar suas relações. Ele não promete amor eterno. Ele oferece luxo, prazer e intensidade.

Dentro do álbum “para: todas que eu fingi amar”, “Roberta” simboliza o auge da desconexão emocional. Aqui não há culpa evidente, como em outras faixas. Há consciência. Ele sabe que não vai salvar, sabe que é uma relação baseada em troca e sabe que o dinheiro virou ferramenta afetiva.

A música mostra como o sucesso no trap pode ampliar excessos: sexo casual, consumo, poder e uma espiritualidade confusa. O amor vira dependência química emocional. O cartão vira abraço. O corpo vira templo.

No fim, “Roberta” não é sobre uma mulher específica. É sobre um padrão. É sobre relações que parecem intensas, mas são sustentadas por vício, ego e luxo. E é exatamente por isso que ela encaixa perfeitamente no conceito do álbum: ele não ama — ele vive, sente, consome… e depois vai embora.